Ser professor e algumas considerações

 


Eu não quis ser professora, não sonhei com isso e não pensava nisso para o meu futuro. Eu almejava ser cientista, em qualquer uma das áreas que eu amo e são muitas dentro da Biologia.

Mas quando eu trabalhava como biologista na UNIFESP achando que estava tudo certp, cortaram minha bolsa e como já contei muitas vezes, tinha feito (por acaso) uma inscrição na Diretoria de Ensino (só para ver no que daria)  e foi assim, depois de alguns meses consegui me recolocar no mercado de trabalho. Antes disso, tentei muito em laboratório de análises clínicas, mas sem sucesso. 

Fiz a inscrição em várias diretorias de ensino de São Paulo, mas a zona oeste me absorveu primeiro no Mariano de Oliveira e depois na Fundação CASA (antiga FEBEM) vinculada com a escola que estou até hoje (vinte e poucos anos depois).

Tentando o mestrado no contra turno do trabalho, acabei engravidando e desesperada para arrumar grana, acabei entregando meu currículo para várias escolas particulares, uma delas me chamou e lecionei lá18 anos, tudo para conseguir uma bolsa de estudos para meu filhote que fez sua pré-escola e o ensino fundamental lá.

Passei por muita coisa, como qualquer pessoa, muitas situações difíceis, outras nem tanto e muitas incríveis. Mas fui cansando e hoje posso dizer que estou esgotada.

Continuo nesta escola do estado de São Paulo, a qual amo muito, mas nas regras antigas eu iria me aposentar daqui uns três ou quatro anos no máximo, fechando com chave de ouro. Com aulas chieas de bom humor e conhecimento. Sabendo que dei o meu melhor a cada dia para cada estudante, mas com as novas regras, serão mais doze anos. Sim! Mais doze anos. Não tenho condições, estou exausta. Com muita força de vontade eu conseguiria finalizar bem, se fossem somente mais uns quatro anos. 

Lecionar direito, das 7h até às 21 ou 23h, cansa muito. Temos que pensar que para um professor ganhar algo em torno de uns seis mil ele terá que trabalhar em duas ou três escolas, somando mais de 50 horas de trabalho. O problema é que nosso trabalho vai muito além da sala de aula, temos que nos atualizar (é maravilhoso, mas cansa e precisa de tempo para dedicação), temos muitas atividades para preparar e corrigir (mesmo com a ajuda da tecnologia que tornou muita coisa mais prática, ainda assim demanda tempo e dedicação). 

Passei no concurso da prefeitura, um concurso exaustivo que demorou dois anos, entre a inscrição e até o apontamento das escolas de preferência (prova prática, perícia, entrega de documentação, ...). 

Ainda bem que a escola particular me desligou em julho de 2023, porque eu não estava mais participando das reuniões e eventos aos finais de semana. Propositalmente. Não pagavam por estes eventos e reuniões e nos obrigavam a ir. No ano seguinte (este ano, 2024), fui chamada em março para assumir o cargo (prefeitura) e declinei de um outro cargo público como professora efetiva no estado de São Paulo (na primeira escola em que lecionei). 

Agora estou no estado, naquela escola que eu amo e na escola da prefeitura. Na prefeitura estou com o fundamental II, não é o público que mais gosto, sem paciência para aquela gritaria, aquelas briguinhas chatinhas, aquela energia toda e muito menos para aquela sexualidade desenfreada de alguns. O pessoal dessa escola é maravilhoso, me recebeu muito bem, por isso estou gostando tanto. 

Nesta escola, surgiu um cargo para auxiliar as crianças especiais e eu me candidatei, Professor de Atendimento Educacional Especializado apresentei o projeto, entreguei a documentação, me chamaram para a entrevista, tudo muito moroso, passei em tudo, publicaram até a intenção de acúmulo de cargos e só foi sair a designação no diário oficial na quinta-feira. O processo todo demorou por volta de dois meses e meio ou mais.

Como eu disse anteriormente é um desgaste muito grande no final de carreira, na verdade o que eu achei que seria o final de carreira, ficar com tantas aulas no fundamental II e médio. Estou exausta e acho que eles precisam de boas aulas e professores empenhados, motivados. 

Eu dou o meu melhor e acredite, é o melhor que muito professor jovem ou experiente oferece (inclusive os jovens que deveriam estar cheio de gana). Mas não sei até quando eu aguento. Comecei contando que não era meu sonho e realmente sou boa professora. Não estou sendo arrogante, me esforço muito para ser boa, não sou a melhor. Quero sim, dar o meu melhor todos os dias, meus estudantes não tem nenhuma culpa da minha falta de coragem e motivação para ser pesquisadora. Mas com minha exaustão está difícil dar o meu melhor. 

Por isso pensei em tentar este cargo, com menos crianças, eu não precisaria ficar todas as aulas me esgoelando para eles ficarem quietos ou ao menos prestarem atenção na explicação. O ensino médio não me desgasta tanto, porque eles já me conhecem, sabem que preciso de 5 a 10 minutos de colaboração para a discussão e/ou explicação. Eles brincam, me divertem, devolvem a gentileza que eu entrego. 

O fundamental você tem que entrar pé no peito, um sorriso e você perde a mão. Não gosto disso, gosto de brincar, explicar, conversar com os alunos, mas não dá. Tudo e qualquer coisa que você planeja vira bagunça e briga. E são muitas crianças que dormiram a manhã toda e vão para a escola para extravasar e poucos, para estudar. 

O problema realmente está comigo, acredito que não seja meu perfil. Por isso resolvi usar uma especialização que gostei muito de fazer em Educação Especial. 

Nesta semana fiz todos os estágios necessários e me inscrevi em outro mestrado, agora na Educação Especial. Vamos ver! Se eu não gostar ou perceber que não irei agregar nada a estas crianças, volto para minhas turmas de fundamental II. 

É isso! Estou apostando todas minhas fichas neste novo cargo, estudando muito, engolindo literatura sobre a educação especial para me ferramentar e facilitar minha prática docente. 

Estou cheia de ideias e entusiasmo. Acho difícil não dar certo. Espero me encontrar!

Se eu passar no mestrado também irá me ajudar muito, terei um laboratório todos os dias para fazer minhas reflexões e análises. É uma área em que não há muitos concorrentes e não preciso estar na bancada, minha bancada será na sala de recursos com estes estudantes. 

Estou feliz.

E mais para frente, terei mais pontos, quem sabe não consigo EJA ou ainda, quem sabe não gabarito a prova do ensino médio e fico no estado e prefeitura com a faixa etária que eu gosto. Muitos planos. Gosto assim.

Abraços para você que lê este desabafo.



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